
"fiquei cercado de nuvens quando ouvi aquela voz de petite enfant me dizendo lá do outro lado do oceano quando eu era pequena fiz um risco e achei parecido com um passarinho, aí fiz outro risco, e já era um passarinho... orgulhosa eu fazia cópias do passarinho e oferecia pra todo mundo... acho que tinha sete anos. a voz me dizia ainda eu olhava uma parede manchada e via formas impressas ali, formas que as pessoas não se ligavam de ver. isso ainda com uns sete anos, ou cinco, ou quatro, ou oito, tanto faz, pois que os anos da primeira infância se pertencem e habitam uns nos outros.
depois dessa conversa quis saber mais, um mais que viesse de mais perto, de dentro, procurei dona julia, a mãe:
- olha rapaz, para falar sobre ela posso partir de mim, sempre quis viajar o mundo, rodar por toda a parte e conhecer os lugares, ver tudo isso, que eu só via em livros. acho que ela nem percebe mas está fazendo tudo isso, por mim e por ela.
ao me dizer da partida de d'arcy albuquerque para portugal, a mãe acabou falando de paisagens, de lugares que ela nunca viu, mas que também via, na mesma manchada parede da vida onde a filha começava a se esboçar.
é desde criança que d'arcy albuquerque dá-se a qualquer que seja a paisagem, mas entrega-se não apenas com olhos atentos e mãos mágicas, se oferece cheia de fôlego num mergulho profundo, onde nada escapa de seu sentimento, principalmente a alma das coisas.
nascida na marabá da selva amazônica em 1972, nunca teve a oportunidade de estudar pintura, mas acabou mais tarde adquirindo certo repertório técnico, quando de sua graduação em aquitetura. essa paraense, que gosta de pensar com cabeça de criança, nunca se interessou pelas panelas dos prêmios das salas. preferiu dedicar-se ao trabalho silencioso e árduo, aquele que ninguém percebe de imediato, porque não está preocupado em mostrar sua claridade.
mesmo que darcy tenha vastas preferências, de imediato nos oferece klimt, gogh, renato alarcão, mpb da clássica chata até os mais novos da terrinha feito um pio lobato, gosta de arnaldo antunes em qualquer, ama tudo o que a dreamworks faz, gosta de roger olmos e tem em alacy rodrigues seu mestre.
sua vivência repleta de infâncias, gosto de criança mais do que deveria, e seu traço pessoal, inapagável, nos oferece um mundo que é legítima invenção nascida só na idéia das árvores, uma invenção indestrutível, feito uma verdade ou um sonho de criança."
do fã e amigo, paulo vieira, 12.05.2008
Sobre a árvore que está ao lado: foi feita em plasticina (massa de modelar) e é um dos elementos que compõem o cenário desenvolvido para a capa do livro "Avaliação do Impacto da Intervenção Precoce no Alentejo" do Vítor Franco e da Ana Maria Apolónio [ARS, 2008].
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